Receber uma decisão judicial pode ser uma experiência intimidadora, especialmente para quem não tem formação jurídica. Termos técnicos, referências a artigos de lei e uma linguagem muitas vezes rebuscada podem transformar a leitura de uma sentença em um verdadeiro desafio. No entanto, compreender o que o juiz decidiu e por que decidiu daquela forma é fundamental para qualquer pessoa envolvida em um processo judicial, seja como parte, empresário ou simplesmente cidadão.
Neste guia, vamos explicar de maneira acessível como uma decisão judicial é estruturada, o que cada parte significa e como você pode extrair as informações mais importantes de qualquer sentença, mesmo sem ser advogado.
O que é uma decisão judicial?
Uma decisão judicial é o ato pelo qual o juiz resolve uma questão submetida ao Poder Judiciário. Ela pode assumir diferentes formas, dependendo do momento processual e do tipo de questão decidida. As mais comuns são as sentenças (que encerram o processo em primeira instância), as decisões interlocutórias (que resolvem questões incidentais durante o processo) e os acórdãos (decisões proferidas por órgãos colegiados dos tribunais).
O Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015), em seu artigo 203, §1º, define sentença como o pronunciamento por meio do qual o juiz põe fim à fase cognitiva do procedimento comum ou extingue a execução. Já o artigo 489 do mesmo diploma legal estabelece os elementos essenciais que toda sentença deve conter.
A estrutura de uma decisão judicial: os três pilares
Toda sentença judicial no Brasil deve conter três elementos obrigatórios, conforme determina o artigo 489 do Código de Processo Civil. Esses elementos funcionam como pilares que sustentam a decisão e garantem sua transparência e legitimidade.
1. Relatório (artigo 489, inciso I, do CPC)
O relatório é a primeira parte da sentença e funciona como um resumo de tudo o que aconteceu no processo. Nele, o juiz identifica as partes envolvidas (quem é o autor e quem é o réu), descreve o pedido formulado pelo autor, resume os argumentos da defesa apresentada pelo réu e registra as principais ocorrências processuais, como audiências realizadas, provas produzidas e eventuais incidentes.
Na prática, o relatório serve para contextualizar a decisão. Se você está lendo uma sentença, essa é a parte que permite entender do que se trata o caso, quem são as pessoas envolvidas e o que cada uma pediu ao juiz.
Exemplo prático: em uma ação de revisão de contrato bancário, o relatório trará informações como o nome do cliente que ajuizou a ação, o nome do banco réu, o valor do contrato discutido, os argumentos do cliente sobre supostas cobranças abusivas e a defesa do banco sustentando a regularidade do contrato.
2. Fundamentação (artigo 489, inciso II, do CPC)
A fundamentação é considerada o coração da decisão judicial. É nessa parte que o juiz apresenta as razões de fato e de direito que o levaram a decidir de determinada maneira. A obrigatoriedade da fundamentação está prevista não apenas no Código de Processo Civil, mas também na própria Constituição Federal, em seu artigo 93, inciso IX, que determina que todas as decisões dos órgãos do Poder Judiciário devem ser fundamentadas, sob pena de nulidade.
O §1º do artigo 489 do CPC trouxe uma importante inovação ao estabelecer situações em que a fundamentação não é considerada adequada. Segundo esse dispositivo, não se considera fundamentada a decisão que se limita a indicar, reproduzir ou parafrasear ato normativo sem explicar sua relação com a causa, que emprega conceitos jurídicos indeterminados sem explicar o motivo concreto de sua incidência, que invoca motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão, que não enfrenta todos os argumentos deduzidos no processo capazes de infirmar a conclusão adotada pelo julgador, ou que se limita a invocar precedente ou enunciado de súmula sem identificar seus fundamentos determinantes.
Na prática, a fundamentação é a parte mais importante para entender o raciocínio do juiz. É aqui que ele explica quais provas foram consideradas, quais leis foram aplicadas, quais argumentos das partes foram acolhidos ou rejeitados e por quê.
Exemplo prático: continuando com o caso da revisão de contrato bancário, na fundamentação o juiz poderá analisar se a taxa de juros cobrada pelo banco está acima da média de mercado divulgada pelo Banco Central, se há cobrança cumulada indevida de encargos (conforme a Súmula 472 do STJ) e se o Código de Defesa do Consumidor é aplicável ao caso (conforme a Súmula 297 do STJ).
3. Dispositivo (artigo 489, inciso III, do CPC)
O dispositivo é a parte final da sentença e a mais objetiva. É aqui que o juiz efetivamente decide, acolhendo ou rejeitando os pedidos formulados pelas partes. É no dispositivo que se encontra a resposta direta à pergunta: o autor ganhou ou perdeu a ação?
O dispositivo também costuma tratar de questões acessórias, como a condenação ao pagamento de custas processuais e honorários advocatícios, a fixação de valores a serem pagos e os prazos para cumprimento da decisão.
Exemplo prático: no caso da ação de revisão contratual, o dispositivo poderá conter determinações como julgar procedente o pedido para reduzir a taxa de juros à média de mercado, condenar o banco a restituir valores cobrados indevidamente e fixar honorários advocatícios em favor do advogado do autor.
Dicas práticas para ler uma decisão judicial
Agora que você conhece a estrutura de uma sentença, aqui estão algumas dicas que podem facilitar a leitura de qualquer decisão judicial.
Comece pelo dispositivo. Se você quer saber rapidamente se o resultado foi favorável ou desfavorável, vá direto ao final da decisão. O dispositivo contém a resposta objetiva sobre o resultado do julgamento.
Leia o relatório para entender o contexto. Se a decisão trata de um caso que você já conhece, o relatório pode ser lido de forma mais rápida. No entanto, se é a primeira vez que você tem contato com o processo, o relatório é essencial para compreender as partes, os pedidos e os principais acontecimentos.
Analise a fundamentação com atenção. A fundamentação revela os motivos da decisão. Se você discorda do resultado, é na fundamentação que encontrará os argumentos que poderá contestar em um eventual recurso. Se concorda, a fundamentação reforçará as razões que sustentam a decisão favorável.
Identifique as referências legais. Sempre que o juiz citar um artigo de lei, uma súmula ou um precedente, anote a referência. Essas citações são os pilares jurídicos da decisão e podem ser pesquisadas separadamente para uma compreensão mais aprofundada.
Não se intimide com o vocabulário jurídico. É natural que decisões judiciais contenham termos técnicos. Palavras como “improcedente” (o pedido foi negado), “procedente” (o pedido foi aceito), “sucumbência” (custas e honorários devidos pela parte que perdeu) e “tutela antecipada” (decisão provisória concedida antes do julgamento final) são frequentes e, uma vez compreendidas, tornam a leitura muito mais fluida.
Tipos de decisões judiciais
Além da sentença, existem outros tipos de decisões que você pode encontrar ao acompanhar um processo judicial.
As decisões interlocutórias são proferidas durante o andamento do processo e resolvem questões pontuais, como a concessão de uma tutela de urgência, a determinação de produção de uma prova ou o deferimento de uma petição. Elas não encerram o processo, mas podem ter grande impacto no seu andamento.
Os despachos são atos do juiz que visam apenas impulsionar o processo, sem conteúdo decisório propriamente dito. Por exemplo, quando o juiz determina que uma parte se manifeste sobre um documento juntado pela outra parte, está proferindo um despacho.
Os acórdãos são decisões proferidas por tribunais, compostos por desembargadores ou ministros. Quando uma sentença de primeira instância é objeto de recurso, o tribunal reavalia a questão e profere um acórdão, que segue estrutura semelhante à da sentença, com relatório, voto (equivalente à fundamentação) e ementa (um resumo do julgamento).
A importância de compreender as decisões judiciais
Saber ler e interpretar uma decisão judicial é uma habilidade que vai além do universo jurídico. Empresários que compreendem as decisões relacionadas aos seus negócios tomam decisões mais informadas. Cidadãos que entendem as sentenças dos seus processos acompanham melhor o trabalho de seus advogados e participam de forma mais ativa da defesa dos seus direitos.
Além disso, o artigo 93, inciso IX, da Constituição Federal garante que todas as decisões judiciais sejam públicas e fundamentadas. Isso significa que qualquer pessoa tem o direito de acessar e compreender as decisões proferidas pelo Poder Judiciário, salvo em casos de segredo de justiça.
Considerações finais
A leitura de uma decisão judicial não precisa ser um mistério reservado apenas a advogados e juízes. Com o conhecimento da estrutura básica de uma sentença e o entendimento dos termos mais frequentes, qualquer pessoa pode extrair as informações essenciais de uma decisão e compreender seus efeitos práticos.
Se você recebeu uma decisão judicial e tem dúvidas sobre seu conteúdo, o mais recomendável é sempre consultar um advogado de confiança, que poderá analisar o caso de forma aprofundada e orientar sobre os próximos passos, incluindo a possibilidade de apresentar recurso, caso seja necessário.
Legislação Citada
- Lei nº 13.105/2015 – Código de Processo Civil (CPC) – Arts. 203, 489, 927
- Constituição Federal de 1988 – Art. 93, IX (dever de fundamentação das decisões judiciais)